Goleiro que parou o Coritiba foi rejeitado por ser baixo: “Vai estudar”


Quando tinha dez anos de idade, o goleiro que parou o Coritiba no último sábado (11), nas quartas de final do paranaensenão foi aprovado na peneira de um grande clube por causa da altura.

“Falaram que era bom, que tinha sido o melhor goleiro que viu no dia, mas que era baixo e por isso não me passou”, conta André Luiz Horocoskihoje com 26 anos.

André chora de felicidade com o preparador Giba.  Foto: Átila Alberti/UmDois Esportes.
André chora de felicidade com o preparador Giba. Foto: Átila Alberti/UmDois Esportes.| ÁTILA ALBERTI/UMDOIS ESPORTES

Na época, o garoto vivia em Toledo, no Oeste do Paraná, cidade a cerca de 40 km de Cascavel, onde aconteceu o teste. Sem muitas condições financeiras, ele e a mãe, Kariane, aceitam uma carona e testemunharam para casa justamente com o funcionários do time organizador da peneira.

No meio do caminho, outra decepção – ainda maior do que a rejeitar inicial. “Falaram para minha mãe que eu deveria desistir do futebol e estudar. Que não iria conseguir nada, que só me frustraria com esse sonho”, recorda o camisa 1 do cascavel.

Machucados, mãe e filho choraram muito após desembarcarem na entrada da cidade. Mas o sentimento que ficou foi de resiliência, de superação. “Engole o choro porque a gente vai dar a volta por cima”, foi o pedido de Kariane para André Luiz.

“Um dia eles perceberiam o erro. E esse clube, que prefiro não falar qual é, realmente veio atrás de mim em 2019, com proposta depois do Paranaense”, fala o arqueiro de 1,80m.

Acrescente mais uns 3 cm para as chuteiras, mas mesmo assim fica longe do que é considerado altura ideal para a posição. Quem disse, porém, que o que está fora do padrão não pode vingar? O caminho só é mais longo.

André Luiz pegou dois pênaltis contra o Coxa em 2019. Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo (Arquivo).
André Luiz pegou dois pênaltis contra o Coxa em 2019. Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo (Arquivo).| Albari Rosa/Gazeta do Povo

Jogando pelo Toledo, André Luiz brilhou no primeiro turno do Estadual de 2019, pegando duas cobranças de pênalti na decisão da Taça Barcímio Sicupiracontra o Coxa, em pleno Couto Pereira.

Virou “Santo André” para a torcida do Porco por causa das defesas milagrosas fornecidas, principalmente, por sua agilidade em baixo das travessas. Explosão que mostrou novamente contra o Alviverde na classificação da Serpente às semifinais do Estadual 2023.

“Existe um preconceito muito grande, é um tabu no futebol brasileiro e mundial também. Mas aos poucos está sendo quebrada essa barreira de que o goleiro precisa ser alto”.

Cascavel eliminou o Coxa com atuação de gala de André Luiz.  Foto: Átila Alberti/UmDois Esportes.
Cascavel eliminou o Coxa com atuação de gala de André Luiz. Foto: Átila Alberti/UmDois Esportes.| ÁTILA ALBERTI/UMDOIS ESPORTES

Três dias depois da atuação de gala contra o Coritiba, ainda assustado com a repercussão “comentada até pelo Milton Neves”, André Luiz viveu outra data inesquecível nessa segunda-feira (13).

“Acabei de casar no civil, amanhã a gente consegue falar?”, disse à reportagem, aos risos.

Já a lua de mel com a esposa Lígia Fernanda na paradisíaca praia de Japaratinga, em Alagoas, ficou para abril. “Depois da final do Paranaense”, espera o arqueiro.

Natural de Laranjeiras do Sul, a 365 km de Curitiba, André Luiz foi contratado pelo Cascavel no ano passado, para a disputa da Série D.

Um dos motivos que o fez aceitar a proposta foi a proximidade das avós maternas, que tiveram grande participação em sua criação. “Todo jogo, quando eles não podem ir ao estádio, a primeira coisa que faço é passar na casa deles para contar como foi. Eles são velhinhos, quero poder cuidar, fazer algo por eles”, diz.

Outra razão foi a possibilidade de trabalhar com o treinador de goleiros Gilberto Lopes da Silva Junior, o Gibade quem havia ouvido falar muito bem por outros amigos de posição.

“Ele dispensa comentários, é um cara sensacional, que nos deixa preparados para qualquer situação dentro do jogo, tanto mentalmente quanto tecnicamente”, elogia.

O goleiro não se firmou no Fantasma.  Foto: Felipe Moreno/MoWA Press
O goleiro não se firmou no Fantasma. Foto: Felipe Moreno/MoWA Press | Felipe

Antes de chegar à Serpente, André teve a maior oportunidade da carreira no Operário, para onde se transferiu no segundo semestre de 2019. Chegou a jogar a Série B pelo Fantasma, mas nunca conseguiu se firmar.

Segundo ele, situações extracampo afetaram sua sequência no clube de Ponta Grossa. “Não houve brigas, mas sim decisões de treinadores, diretoria. Não cabia a mim fazer algo. Eu estava treinando para receber oportunidades, mas infelizmente não recebia. Quando joguei, acho que fui bem”, opina o atleta, que também passou pelo São Joseense, Lagarto-SE e Joinville, mas não esconde que sonha bem mais alto.

“Talvez não era hora de estar em um clube de expressão maior, talvez Deus quisesse me preparar para mais para frente ter uma projeção maior. Como jogadores, todos queremos estar lá em cima, jogar uma Série A. Eu almejo algo maior, mas acredito que para tudo há um plano, um processo, para que possa estar preparado quando essa bênção chegar”, conclui.



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